Este é o último post que farei neste blog. Como contei hoje na coluna Nas Entrelinhas, estou me despedindo do Correio para assumir um novo desafio profissional.
O blog foi uma experiência muito forte para mim. Em alguns momentos, adorei fazer. Em outros, me desesperei com dificuldades técnicas ou com a falta de tempo para cuidar dele da forma como gostaria.
Alguns dias, ele saiu da forma como eu sonhava. Em muitos outros, não. Mas peguei gosto e acho que estava pegando o jeito. Vou sentir falta.
Quero agradecer à direção do Correio Braziliense por ter me confiado um espaço tão importante, sem qualquer vigilância ou interferência.
E quero, acima de tudo, agradecer a quem se tornou leitor desse blog. Continuem por aqui. Há ótimos blogs na página do Correio. E muitos outros nessa blogosfera.
Um grande abraço a todos.
Gustavo Krieger
| Sem escolher lado Honestamente, não acredito que algum governo possa estar sempre certo ou sempre errado. Por isso, acho que qualquer alinhamento automático é um erro Por Gustavo Krieger gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
|
Sem escolher lado
Honestamente, não acredito que algum governo possa estar sempre certo ou sempre errado. Por isso, acho que qualquer alinhamento automático é um erro
Por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
Há dois dias, o Ugo Braga, que também escreve neste espaço, repassou a todo o time da coluna um e-mail, redigido por um leitor atento e crítico. O título era algo como “sem oposição, só nos resta a imprensa”. O leitor lamentava a falta de uma oposição digna deste nome no país e exortava a mídia a desempenhar esse papel. Distribuía elogios a todo nós, mas fazia ressalvas ao que chamou de “tolerância governista” de minha parte. Confesso que a mensagem me deixou pensando. Em primeiro lugar sobre a tal tolerância a mim atribuída. Em segundo, pela convocação feita pelo leitor.
A acusação não me pega. Tenho colecionado outros tantos e-mails me xingando de tucano, recebidos após colunas nas quais pesei a mão na análise de erros do governo. Outros, me acusando de governista. Dependendo da coluna, muda a acusação. Considero isso um elogio. Se consegui desagradar aos dois lados, devo ter feito alguma coisa certa.
Com o perdão do leitor, não acho que o papel dos jornalistas seja fazer oposição. Nossa tarefa é maior que essa. Temos de fiscalizar o governo, o Congresso e os políticos. Apontar erros e denunciar casos de corrupção, mas também falar de políticas públicas, fazer análise e revelar bastidores. E ser livres para falar de erros do governo e da oposição.
Honestamente, não acredito que algum governo possa estar sempre certo ou sempre errado. Por isso, acho que qualquer alinhamento automático é um erro.
No período em que escrevi nesse espaço certamente desagradei a muita gente. Mas sempre obedeci minha própria consciência.
Justiça
Já tratei do assunto há alguns dias, mas acho que vale mais uma lembrança. Ficou para hoje, a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os recursos com os quais o governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), tenta se manter no cargo. Há um mês e meio, a Corte decidiu pela cassação do mandato dele. Mas, graças aos recursos, Lago ganhou tempo. E vem usando cada segundo. A oposição recorreu à justiça para tentar paralisar os gastos que ele vem realizando na fase final de sua administração.
Tive acesso a alguns dados. Em março, ele fez gastos extraordinários de R$ 648 milhões. O dinheiro foi repassado para aliados políticos e para obras que ainda não começaram. A prefeitura de São Luís recebeu R$ 150 milhões. A de Imperatriz, ficou com R$ 77 milhões. A Assembleia Legislativa, que luta contra a cassação dele, ganhou quase 36 milhões.
O governador, que pode estar vivendo os estertores de seu mandato, lançou um programa para distribuir R$ 150 a famílias carentes. Uma bomba-relógio pronta a explodir no colo de sua sucessora, caso a perda de mandato seja confirmada.
Tudo isso remete a um problema estrutural dos processos de cassação dos governadores. Lago foi eleito em desafio à candidatura de Roseana Sarney (PMDB). Conseguiu encarnar em sua candidatura a oposição ao clã Sarney. Dois anos depois, a Justiça Eleitoral concluiu que sua eleição se deveu ao abuso de poder econômico e à compra de votos e decidiu cassar seu mandato. Quando essa decisão for implementada, Roseana assumirá o governo. Ou seja, o governador virtualmente cassado está tomando conta do caixa que sua inimiga vai administrar.
É o tipo de situação que não pode mesmo dar certo. O Maranhão é um exemplo, mas o mesmo aconteceu em outros estados. A cassação de governantes eleitos sob a suspeita de uso da máquina pública ou de abuso de poder econômico é uma saudável novidade da política brasileira. Agora é preciso dar um segundo passo e criar um rito mais rápido, que poupe os estados e suas populações desse tipo de impasse.
Despedida
Aos leitores, uma boa notícia. Esta é a última Nas Entrelinhas que escrevo, ao menos até que a vida apronte alguma nova surpresa. Deixo o jornal, para assumir um novo desafio profissional. Agradeço à direção do Correio pela confiança em me conceder o espaço e pelo espírito democrático com que sempre tratou minhas opiniões. E aos leitores, pela paciência.
Uma fonte que participa da reunião do Conselho Político do governo me informa: o presidente Lula deu ordem para que o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) de 2009 seja igual ao de 2008. Pelas contas do governo, isso significa que a União terá de mandar mais R$ 1 bilhão aos prefeitos. Nesse momento, estão discutindo a forma.
O presidente foi duro. Disse que vai tirar o dinheiro de quem não viabilizou seus projetos. As verbas serão transferidas para outras obras, que podem ser concluídas em menor prazo
por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
Nos últimos dias, o governo fez uma série de movimentos que demonstram inquietação com a crise da economia e seus efeitos políticos. O mais visível deles foi a demissão de Antonio Francisco de Lima Neto da presidência do Banco do Brasil (BB). Ele saiu porque não atendeu com a rapidez necessária a ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para reduzir o spread bancário (a diferença entre os juros que o BB paga a seus aplicadores e o que cobra pelos empréstimos). A medida pegou muito mal no mercado financeiro. As ações do banco caíram 8,15% em um dia. Mas, para a multidão que está sufocada pelos juros do cheque especial ou tem parte do salário comida pelo empréstimo com desconto em folha, ele passou seu recado. Sai do episódio como um presidente tão empenhado em baixar os juros que não hesita em mandar para o olho da rua quem resiste. Ainda não dá para avaliar a eficácia econômica da medida, mas do ponto de vista da imagem de Lula, ela só pode ter sido positiva.
Ontem, quando a maior parte das repartições públicas estava fechada em Brasília, o presidente chamou ao seu gabinete os ministros e presidentes de estatais responsáveis por obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Oficialmente, para um balanço. Na prática, para uma bronca em quem anda atrasando o cronograma. Lula recebeu os auxiliares com um detalhado relatório sobre o andamento de cada obra. Uma parcela significativa ainda não saiu do papel. O presidente foi duro. Disse que vai tirar o dinheiro de quem não viabilizou seus projetos. As verbas serão transferidas para outras obras, que podem ser concluídos em menor prazo.
A bronca foi ouvida com toda a atenção. Afinal, todos sabiam que o presidente do Banco do Brasil tinha sido demitido na véspera por demorar em atender o presidente. Numa hora assim, ninguém quer correr riscos. Nem de perder verbas nem de perder o cargo.
O presidente tem pressa. Quer resultados logo. Não por acaso, o governo estreou nesta semana a campanha publicitária do programa Minha casa, minha vida, que promete a construção de 1 milhão de residências. As casas ainda não existem. Nas previsões mais otimistas, demorará uns seis meses até que as primeiras unidades sejam inauguradas. Mas é preciso mostrar, desde já, que o governo está agindo. Um levantamento da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que tive a oportunidade de ver, mostrava que o lançamento do programa teve grande exposição na mídia, especialmente nos jornais regionais. Agora, a tarefa é mantê-lo em evidência e aí entra a campanha publicitária.
Tudo isso tem como pano de fundo a preocupação do governo com os efeitos políticos da crise. Aquela que o presidente Lula se esforça tanto para negar que acaba confirmando. As pesquisas de opinião realizadas em março revelaram uma queda de até 10 pontos na popularidade do presidente Lula. O Palácio do Planalto esperava uma baixa, mas não tão grande. E ninguém no governo sabe prever o que acontecerá na próxima rodada de pesquisas. Por isso, todos fazem tanta força para mudar esse quadro.
O PAC já era parte essencial do plano político de Lula para o segundo mandato. A ideia era projetar a imagem dele como um tocador de obras e a da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como a gerente que transformou os projetos em realidade. A crise econômica aumentou ainda mais essa importância. O presidente vê os investimentos do PAC como uma arma para manter a economia aquecida. Uma versão local dos planos de investimentos que Barack Obama lançou nos Estados Unidos.
É por isso que o presidente está tão preocupado em atender os pedidos dos prefeitos. Teme que o aperto dos cofres municipais, provocado pela crise, os impeça de investir em obras. As prefeituras são parceiras fundamentais da execução do PAC. Para agradar a seus ocupantes Lula está disposto a abrir mão de arrecadação, liberar mais emendas parlamentares ao orçamento ou qualquer outra medida que se faça necessária.
A propaganda do programa de moradia na TV convida os telespectadores a visitar o site www.confiancanobrasil.com.br. É uma página na qual estão expostos os principais projetos do governo Lula. O PAC é o principal destaque. Logo de cara há uma enquete, perguntando se o internauta conhece alguma obra do PAC em sua cidade. Até ontem à tarde, a pesquisa tinha sido respondida por 10.937 pessoas. Nada menos que 80% responderam que não conheciam nenhum projeto. Por aí se vê que Lula ainda terá muitas dores de cabeça a administrar.
Dilma Rousseff tem um passado político e é importante que ele seja conhecido e julgado, sem preconceitos nem mistificações pelos brasileiros
Por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
Nos últimos dias, foram publicadas reportagens sobre o passado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como militante e dirigente da VAR-Palmares, organização de esquerda que escolheu o caminho da luta armada para combater o regime militar. Como acontece sempre que a mídia trata do assunto, instalou-se uma polêmica entre os adversários e os admiradores da ministra. Uns veem nas reportagens sobre o tema uma tentativa de minar a candidatura dela à Presidência da República em 2010, pintando o seu retrato como o de uma terrorista. Já os outros... Bom, os outros a acusam mesmo de ter sido uma terrorista.
Pessoalmente, acho um bom debate. A ministra Dilma Rousseff tem um passado político e é importante que ele seja conhecido e julgado, sem preconceitos nem mistificações pelos brasileiros. E é bom que ela tenha uma história. A crítica mais correta que pode ser feita à sua candidatura presidencial é a da artificialidade. Ela não foi escolhida no debate interno do PT, seu partido. Foi pinçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os ministros e ungida por ele como candidata à sua sucessão. Só depois foi sendo assimilada pela legenda.
Com um processo de escolha assim, o grande risco é o da imposição de uma candidatura artificial, de alguém que seja mais um produto de marketing. Nesse sentido, é tranquilizador saber que Dilma tem uma história política que remonta há mais de três décadas. É uma prova de que ela tem conteúdo. Concordar ou não com esse conteúdo é prerrogativa de cada brasileiro, que poderá votar nela ou não.
Reportagens sobre o assunto são importantes. E, por isso, é fundamental que sejam exatas. Que não se exagere nem o papel de Dilma na Var-Palmares nem a importância da organização na vida dela.
Terrorismo ou revolução?
Na primeira frase desta coluna, tomei um cuidado especial ao descrever a VAR-Palmares. Não usei para defini-la a palavra terrorista e tampouco lhe dei a chancela de revolucionária. A atenção ao texto foi proposital. Nesse caso, as palavras são carregadas de simbologia e valor. Quem descreve como terrorista a ação da organização a está condenando e, por extensão, a seus militantes. Por outro lado, o termo revolucionária lhe empresta um ar de romantismo e justificação. Prefiro ser mais seco. Tratava-se de um grupo de militantes de esquerda que escolheu as armas para combater um regime imposto pelas armas. Você pode concordar com isso, ou ao menos compreender a ação. Ou não. De qualquer forma, isso ajuda a compreender a alma de Dilma Rousseff. Era alguém disposta a arriscar a vida pelo que acreditava. E também a romper com os limites da legalidade, se isso lhe parecesse correto. Convenhamos, isso é mais do que sabemos sobre a maioria dos políticos.
É claro que a Dilma de hoje é bem diferente da jovem militante que foi presa e torturada no tempo da ditadura. Está mais pragmática, mais centrada e provavelmente mais conservadora. Uma transformação semelhante à que aconteceu com José Serra, um de seus prováveis adversários nas eleições do ano que vem. O governador de São Paulo não é igual ao jovem que foi dirigente da UNE e militante da Ação Popular, outro movimento de esquerda contrário ao regime militar. Mas boa parte do que ambos são hoje é resultado da forma como viveram aqueles anos de chumbo.
Informação
Honestamente, não acredito que esse será um tema central da decisão de voto. A crise econômica, os programas sociais do governo, as denúncias de corrupção e a competência dos marqueteiros de lado a lado vão pesar mais. Mas o assunto estará presente na campanha eleitoral, não tenham dúvidas. Muita gente se recusará a votar em Dilma para não dar seu apoio a alguém que consideram uma ex-terrorista. E terão todo o direito de agir assim. Outros, ao contrário, podem ver nesse passado um sinal de que ela é mais do que a ministra com jeitão de supergerente que o país conheceu durante o governo de Lula. É uma das boas coisas da democracia.
O último ano
A equipe de Lula em 2010 é um mistério para o qual possivelmente nem ele tem a resposta. Pode ser um grande comitê eleitoral ou uma demonstração do vazio que cerca o fim dos mandatos
Por Gustavo Krieger
Arte: Caio Gomez/CB/D.A Press
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem horror à perspectiva do fim do mandato. Não, esta não é mais uma coluna sobre o fantasma de alguma manobra para quebrar o arcabouço legal e tentar lhe garantir mais algum tempo de poder. Já deixei claro em outros textos que não acredito nessas teorias conspiratórias. Lula sairá em 1º de janeiro de 2011. E é justamente a inexorabilidade desse afastamento que o preocupa. O presidente gosta do poder e quer exercê-lo plenamente até o último momento. O que lhe causa apreensão é o risco daqueles últimos meses, em que o político com a expectativa de poder se torna mais importante do que o atual ocupante do cargo. Como diz a velha piada, são aqueles momentos em que o café demora tanto a ser providenciado que já chega frio ao gabinete.
Lula tentará fugir a essa regra e até já tem uma fórmula. Como não pode ser candidato, investiu na criação da candidatura de sua auxiliar mais próxima, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Avalia que, no último ano de mandato, a condição de privilegiado cabo eleitoral lhe garantirá a importância que deseja. É uma boa aposta. Todos, no governo e na oposição, sabem que o alcance da candidatura oficial dependerá diretamente da popularidade de Lula e do grau de envolvimento que ele terá na campanha.
O que me deixa preocupado é imaginar o que acontecerá com o governo federal ao longo de 2010. Um levantamento feito pelo jornalista Josias de Souza revela que entre 18 e 21 ministros pensam em candidatar-se a algum cargo nas próximas eleições. Tudo bem que o governo Lula tem 37 ministros, mas mesmo assim, será uma tremenda mudança. A lei eleitoral exige que eles saiam dos cargos em março de 2010, quando ainda faltarão nove meses para o fim do mandato do presidente.
Será uma megarreforma ministerial. Alterará as áreas mais sensíveis do governo, desde a Casa Civil até o Banco Central, passando por Educação, Justiça e outras pastas estratégicas. E, para complicar ainda mais a vida do presidente, ele não poderá chamar para sua equipe ninguém que tenha pretensões eleitorais.
O presidente nunca se mostrou muito confortável com reformas ministeriais. Leva um longo tempo para afastar auxiliares e ainda mais para escolher os novos ocupantes das cadeiras. Isso, quando a encrenca envolve um ministério. Imagine-se com 20.
Qual será a cara dessa equipe de final de mandato? A saída dos políticos e a impossibilidade de chamar outros apontariam para uma equipe de técnicos. Por outro lado, Lula aposta na força do governo para eleger Dilma. É de se supor que ele espere ver seus ministros trabalhando politicamente por sua candidata.
Deverão ser técnicos escolhidos politicamente, por indicações dos partidos que integram a base do governo. Mas também terão que contar com a confiança de Lula. A última coisa que ele vai querer é descobrir que algum de seus novos ministros está fazendo corpo mole ou ajudando outros candidatos.
Há outro elemento para complicar a equação. A base governista de hoje é congressual. Foi montada para dar a Lula maioria na Câmara e no Senado. O presidente deseja que a mesma (imensa) base esteja no palanque de Dilma, ao menos formalmente. Mas essa será uma nova negociação, com regras próprias. Os espaços no ministério podem ser tanto uma forte moeda de troca quanto um instrumento de retaliação contra os rebeldes. A lei eleitoral impõe uma série de restrições ao uso político da máquina pública em anos eleitorais, mas todos sabem que apesar delas os cargos mantém boa parte do seu poder de fogo.
A equipe de Lula para o último ano de governo é um mistério para o qual possivelmente nem ele tem a resposta. Pode ser um grande comitê eleitoral ou uma demonstração do vazio que cerca o fim dos mandatos.
Castelo de areia
É fundamental que a corrupção seja combatida e os corruptos presos. Para isso, a PF precisa ser conhecida por sua eficiência e não por sua pressa
Por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
Eu gosto de filmes policiais. Se eles envolverem intrigas políticas e os bastidores do poder, melhor ainda. Supostamente então, deveria achar eletrizante o drama que se segue à Operação Castelo de Areia, em que a Polícia Federal escarafuncha os arquivos da Camargo Corrêa, uma das maiores empresas do Brasil e dona de polpudos e polêmicos contratos com a administração pública. Mas não consigo. O caso tem cara de filme velho e sua parte política apresenta um enredo a que todos nós já fomos expostos à exaustão.
É sempre assim: a Polícia Federal faz uma operação de grande repercussão. O noticiário do dia é tomado por imagens de gente importante sendo presa. Engravatados espremendo-se na parte de trás de camburões são sucesso garantido de audiência. Horas depois, aparecem os vazamentos. Começam a pipocar nomes de políticos suspeitos de envolvimento com o esquema da vez. Eles ficam no centro do tiroteio por um ou dois dias e depois partem para o contra-ataque. Denunciam armações e acusam a PF de atuar politicamente contra eles. Se o acusado é da oposição, esmera-se para dizer que tudo não passou de um plano maquiavélico, normalmente atribuído ao ministro da Justiça, Tarso Genro. Se é do PT, a saída é acusar setores da PF que seriam remanescentes dos governos tucanos. Ao fim, o que está em debate não é mais o suposto crime, mas a ação da polícia e suas eventuais conspirações.
Honestamente falando, acredito pouco nessas teorias conspiratórias. Os problemas que existem são mais consequência de falhas na condução dos inquéritos que de um grande plano para usar a Polícia Federal como arma política. Mas isso não torna a questão menos grave. Atropelos em inquéritos provocam dois sérios riscos: um é o de acusar injustamente os inocentes. Outro é de deixar escapar os culpados.
O caso da Operação Castelo de Areia é um bom exemplo dos erros e acertos da PF. Tudo começou com uma denúncia anônima de que um doleiro, conhecido no mercado por supostos serviços de lavagem de dinheiro, estaria a serviço de diretores da Camargo Corrêa. Acusações sem nome do autor normalmente não são um bom começo, mas a polícia foi criteriosa. Acompanhou os passos do doleiro e, depois de certificar-se de que ele mantinha relações com a empreiteira, pediu a quebra de seu sigilo telefônico. Começaram, então, meses de escuta nas conversas dele e de seus interlocutores.
No meio disso, surgiram conversas em que os diretores da empreiteira discutiam doações a políticos. Falavam em dinheiro “por dentro” e “por fora”. A suspeita, óbvia, era de que se tratava de um esquema de caixa dois. A PF não tinha outro caminho a não ser investigar. Qualquer outra atitude seria crime. O problema foi a forma como se deu essa investigação. A polícia não avançou em relação às conversas gravadas. Poderia, por exemplo, ter verificado na justiça eleitoral se os políticos citados tinham ou não contabilizado doações da empreiteira. Seria uma cautela justificável. A Camargo Corrêa é uma das maiores financiadoras do caixa um de campanha no Brasil. Isso não significa, de forma alguma, que ela não pudesse estar doando dinheiro “por fora”, como sugeriam as gravações. Mas recomendava que, antes de encaminhar o inquérito à justiça, a PF fizesse um esforço suplementar para separar o joio do trigo.
Uma alternativa seria separar o caso em uma investigação própria. Tivesse feito isso, hoje a PF teria em sua mão arquivos e computadores da empreiteira capazes de confirmar ou descartar a suspeita. Poderia fechar o caso com muito mais eficiência dentro de alguns meses, ou então arquivá-lo sem expor os políticos e a si mesma a tantas suspeitas.
O mesmo aconteceu com a Operação Satiagraha, há pouco tempo. Hoje, discutem-se mais as peripécias do delegado Protógenes Queiroz do que as acusações contra os políticos e empresários que ele prendeu. Para alguns, o policial é um herói. Para outros, um trapalhão. Melhor seria se ele fosse discreto.
É fundamental que a corrupção seja combatida e os corruptos presos. Para isso, a PF precisa ser conhecida por sua eficiência e não por sua pressa. A Operação Sanguessuga, que desmascarou um esquema de desvio de verbas públicas para compra de ambulâncias, foi um exemplo de inquérito concluído no tempo certo. Seus resultados causaram impacto imediato e desdobraram-se em processos sólidos, que tramitam na justiça. Se esse cuidado não é tomado, a ação da polícia, mesmo quando feita contra os alvos certos, pode desabar como um castelo de areia.
A bancada do PTB fechou questão ontem a favor da manutenção do texto da MP 449 da forma como veio da Câmara. Para quem não sabe, o texto do governo foi transformado pelos deputados em uma espécie de "super-refis", abrindo espaço para que empresas de todos os tipos renegociem suas dívidas com o fisco em condições extremamente favoráveis.
O partido tem nove votos efunciona como uma espécie de fiel da balança no Senado. Sua decisão torna praticamente impossível ao governo mudar o texto da MP. Restará negociar, ou então transferir ao presidente Lula a desagradável tarefa de vetar o texto.
O movimento foi articulado pelo líder do PTB, Gim Argello (DF). Ele negociou com o relator da proposta na Câmara, Tadeu Filipelli (PMDB-DF). Foi, por sinal, com a certeza de ter o aval do PTB do Senado, que Filipelli jogou pesado em seu relatório.
"É o momento de apoiar o emprego e não de estrangular as empresas", justifica Gim Argello.
Por enquanto, Dilma está ganhando os votos do núcleo duro do eleitorado de Lula. Aqueles cuja lealdade ainda não é ameaçada pelos efeitos da crise
Por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
A pesquisa do instituto Sensus apontou uma aparente contradição. A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva caiu significativamente, mas a candidata dele, Dilma Rousseff, ganhou pontos nos cenários eleitorais para 2010. E há outro dado aparentemente ainda mais estranho. Cresceu a importância de Lula como cabo eleitoral. O contingente de entrevistados que prometem votar no nome indicado por ele para sua sucessão pulou de 15,6% para 21,5%. Desencontros numéricos como esses costumam alimentar teorias de conspiração entre os torcedores contra ou a favor do governo. A verdade, prosaica, é que eles podem ser explicados com um olhar mais atento à pesquisa.
Para começar, é bom olhar com calma para a popularidade do presidente e de sua administração. A avaliação positiva do governo caiu 10 pontos e a aprovação ao desempenho de Lula caiu oito. São números significativos em qualquer pesquisa. Mas o fato é que os índices continuam altíssimos. A aprovação de Lula está em 76,2%. Significa que ele tem o apoio de três entre cada quatro brasileiros. É um enorme patrimônio eleitoral. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta comparar com a posição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em março de 2001, quando tinha o mesmo tempo de mandato que Lula tem hoje. A aprovação era de 45,6% e a desaprovação, de 45,4%.
Em resumo: Lula pode não estar tão bem quanto no final do ano mas continua em posição privilegiada. Se vai mantê-la ou não, depende de muitas variáveis. O andamento da crise, as medidas do governo para enfrentá-la e a capacidade do presidente mostrar, no discurso, que a culpa não é dele. E ele vem se esforçando para isso.
É um erro tomar por um escorregão verbal a frase em que ele atribuiu os problemas da economia mundial aos erros de “gente branca e de olhos azuis”. O presidente sabia o que estava falando e, mais importante, para quem. Seu alvo não era o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que assistiu constrangido ao ataque. Lula mirou no seu público. Queria mostrar aos brasileiros mais pobres que a encrenca é coisa dos gringos. A declaração pegou mal na imprensa internacional, mas ele está de olho é na audiência interna.
Tudo bem, mas como explicar os movimentos divergentes: a subida da candidata no momento da queda do presidente? A razão é política. Por enquanto, Dilma está ganhando os votos do núcleo duro do eleitorado de Lula. Aqueles cuja lealdade ainda não é ameaçada pelos efeitos da crise. Vamos aos números. Na simulação em que enfrenta José Serra (PSDB), a ministra obteve 16,3%. Em outro cenário, no qual o candidato tucano é Aécio Neves, ela apresenta desempenho semelhante. Chega a 19,9%.
Na mesma pesquisa, 21,5% dos entrevistados disseram que o candidato apoiado por Lula é o único em que votariam. Ou seja, a votação dela ainda cabe no contingente de eleitores cativos do presidente. Além disso, historicamente os institutos de opinião pública apontam que o PT teria a simpatia de cerca de 20% do eleitorado. Dilma está conquistando os votos de casa.
Não é pouca coisa. Há um ano, ela patinava em torno dos 3%. Seu nome aparecia nas pesquisas ao lado de outros presidenciáveis com assento no governo Lula, como Tarso Genro ou Patrus Ananias. Vem ganhando espaço, de maneira lenta mas constante. Tornou-se o único nome do PT nos formulários dos pesquisadores. Aos poucos, vem sendo assimilada pelo partido e seus simpatizantes. É verdade que com graus diferentes de entusiasmo, variando da euforia ao pragmatismo. Mas ninguém mais discute sua primazia para suceder Lula. Ao menos em público.
Um dado interessante: o grupo que promete votar no candidato de Lula subiu seis pontos de janeiro para cá. Ao mesmo tempo, caiu em oito pontos a parcela de entrevistados que condicionava seu apoio a conhecer antes o candidato oficial. Pois bem. O nome do governo está definido. É Dilma. Ao que parece, pela transferência de votos, ela vem sendo bem recebida.
No Nordeste, região onde o presidente é mais bem avaliado, sua candidata tem o melhor desempenho, chegando a 26,5%, contra 38% de Serra.
Essa é a boa notícia para o governo. A ruim é que os eleitores cativos de Lula e do PT não são suficientes para vencer uma eleição presidencial. Para ganhar, Dilma terá de conquistar votos na classe média e em outros segmentos menos vinculados ao governo. Uma tarefa que a crise econômica torna ainda mais complicada.
A pesquisa mais recente do instituto Sensus, divulgada agora, trouxe boas e más notícias para o governo Lula. A má é a confirmação de que a crise atingiu a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A positiva, a continuidade no crescimento de sua candidata, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Parecem notícias contraditórias, mas dá para explicar.
Em primeiro lugar, a popularidade: A avaliação positiva do governo caiu de 72,5% em janeiro para 62,4% agora. São dez pontos percentuais, o que é significativo em qualquer pesquisa. Mas o deslocamento foi moderado. O que aumentou foi o contingente para quem o governo é regular: de 21,7% para 29,1%. A avaliação negativa fica em 7,6%.
A aprovação do desempenho do presidente caiu oito pontos. De 84% para 76,2%. Mas o número ainda é altíssimo. Para se ter uma idéia, na mesma altura do segundo mandato, Fernando Henrique Cardoso tinha a aprovação de 45,6% e a desaprovação de 45,4%.
A razão da queda é a mesma detectada pelas pesquisas do Ibope e Datafolha, divulgadas há poucos dias. Os brasileiros estão sentindo os efeitos da crise. Em janeiro, 38,5% dos entrevistados avaliaram que o emprego no país havia piorado nos seis meses anteriores. Agora, esse índice subiu par 54,5%. O mesmo acontece com a renda mensal. Em janeiro, 23,2% queixaram-se de que os rendimentos tinham caído no semestre anterior. Nesta pesquisa, o índice subiu para 32,6%.
Apesar disso, os brasileiros estão otimistas em relação ao futuro. Para 48,6% o nível de emprego no país aumentará nos próximos seis meses. Índice semelhante aos 51,1% registrado em janeiro. E, para 46,3%, o país sairá fortalecido da crise.
Com índices ainda altos e uma expectativa na qual o otimismo ainda supera a preocupação, Lula continua posicionado como um eleitor privilegiado em sua sucessão. Nesta pesquisa, 21,5% disseram que o candidato apoiado por Lula será o único capaz de ganhar seu voto. Mais do que os 15,6% que deram a mesma resposta em dezembro do ano passado. Nessa questão, há um dado interessante. Esses eleitores saíram do grupo que só definiria o voto depois de conhecer o candidato. Bom, o candidato do governo é conhecido: Dilma Rousseff. Isso mostra que o eleitorado de Lula parece satisfeito com a escolha de Dilma.
A candidata continua a crescer de forma lenta, mas constante. O Sensus simula vários cenários. O mais provável é o em que ela enfrentaria o tucano José Serra e a candidata Heloísa Helena, do PSol. Nesse cenário, Serra teria 45,7% (três pontos a mais que em dezembro), e Dilma ficaria com 16,3% (também um crescimento de quase três pontos). Heloísa Helena parou em 11%. Os números dela já são mais positivos que os de Ciro Gomes (PSB), outro possível candidato da base governista.
Desde a amnhã de quarta-feira, o telefone do ministroTarso Genro não para de tocar. Do outro lado da linha, políticos preocupados com a operação da PF na construtora Camargo Correa. Alguns queriam informações. Outros, saber se havia jogo político na ação. Tarso manteve o discurso. Disse que a PF apenas atendeu a um pedido da justiça e que a operação e seus segredos pertencem ao Ministério Público.
Por Gustavo Krieger
gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br
Ontem, numa conversa reservada com um influente parlamentar da base governista, ouvi algo surpreendente. “Tem gente pensando que, se a crise se agravar e atingir o Brasil em cheio, seria melhor tentar um grande acordo e não fazer eleições em 2010. Dar mais um ano de mandato para todos e jogar a disputa para 2011.” A ideia me pareceu inviável, mas o interlocutor merece respeito. É um daqueles políticos que frequenta os gabinetes mais importantes do Palácio do Planalto e costuma saber o que se passa por lá. Perguntei de quem seria a proposta. Ele se retraiu. “É algo que está sendo falado pelas sombras”, disse.
Um ministro, com quem conversei logo depoi, pulou fora. “Essa conversa não passou nem perto de mim”, jura. É bom registrar que também se trata de fonte confiável e bem informada.
De qualquer forma, é o tipo de história que todo mundo vai negar, mesmo se for verdade. Em primeiro lugar, cheira a golpe. Mas, além dos impedimentos éticos, há os de ordem prática. Mudar as regras do jogo tão perto da eleição exigiria uma maioria no Congresso que o governo Lula não tem. A saída, improvável, seria tentar um grande acordo, envolvendo a oposição. Em resumo: seria ainda mais complicado do que a tentativa de permitir que o presidente disputasse o terceiro mandato, aventura que naufragou no ano passado.
Mas o simples fato de a ideia ser cogitada já é significativo. Mostra a inquietação que a crise econômica provoca entre aliados do Palácio do Planalto. Até setembro do ano passado, a disputa pela sucessão de Lula seguia um roteiro bem definido. A corrida seria entre um tucano, José Serra ou Aécio Neves, e Dilma Rousseff, escolhida por Lula para ser a candidata do PT. Outros nomes, como Ciro Gomes ou Heloísa Helena, fariam papel de coadjuvantes.
Os tucanos aparecem mais bem posicionados nas pesquisas, mas a ministra conta com trunfos poderosos: a máquina do governo e o prestígio pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Esse cenário previsível mudou, assim como milhares de outras coisas no mundo pós-crise. O caixa do governo apertou e as pesquisas mais recentes mostraram abalo na popularidade do presidente Lula. Politicamente, as notícias são boas para a oposição. 2009, o ano em que a ministra terá de consolidar-se como candidata, será um período de dificuldades para o governo.
É terreno fértil para teorias de conspiração e ideias que surgem das sombras. Mesmo que não prosperem, elas são um bom termômetro.
Senado
Depois de anunciar que tinha 131 diretorias e corrigir a conta para 138 e depois para 181, o Senado informou que são apenas 38 cargos de direção. Os demais seriam funcionários chamados de diretores e que recebiam a gratificação como diretores, mas não são diretores. É a mais pura verdade. A multiplicação de diretorias não passou de uma estratégia engendrada pela burocracia da Casa para engordar o salário de alguns apadrinhados. Mas a admissão não melhora o quadro. Ao contrário. O Senado está reconhecendo que remunerava quase 150 nababos por uma função que eles não exerciam.
A dança das diretorias é, provavelmente, o retrato mais significativo das dificuldades do Senado em enfrentar a crise. De uma hora para outra, a Casa transformou-se em pauta principal da imprensa. Em todas as redações, repórteres ansiosos começam seu dia com a missão de encontrar irregularidade em sua administração. É como quando alguém levanta uma pedra no quintal. Debaixo dela surge todo tipo de bicho esquisito.
A cúpula do Senado lembra um lutador aturdido pela quantidade e violência dos golpes recebidos. Reage por instinto, de forma apressada. Por isso, a Casa se atrapalha diante de missões simples, como fazer a contabilidade de suas diretorias. Anunciam-se medidas de impacto, apenas para que alguns dias depois descubra-se que elas não foram implementadas.
Ontem, no plenário, deu para ouvir a conversa entre dois senadores. Comentavam a operação da Polícia Federal que apreendeu documentos e prendeu diretores da empreiteira Camargo Correa. “Com essa história pode ser que se esqueçam da gente”, disse um deles, com ar aliviado.
Os especialistas em gerenciamento de crise sugerem dois tipos de solução, absolutamente opostas, para esse tipo de encrenca. Uma é ficar quieto e esperar a onda passar, provavelmente com outro escândalo. A outra é enfrentar os problemas de frente. A segunda é melhor. Mas a primeira é bem mais provável.